sábado, 23 de março de 2013

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Ela foi pioneira na terapia ocupacional, introduzindo este método no Centro Psiquiátrico Pedro II do Rio de Janeiro e, segundo suas próprias palavras, entrara na Psiquiatria "pela via de atalho da ocupação terapêutica, método então considerado pouco importante para os padrões oficiais".

Nise era alagoana e fez seus estudos médicos na Faculdade de Medicina da Bahia (1921-1926) e foi a única mulher numa turma de 157 alunos. Em 1933 entrou para o serviço público, através de concurso, trabalhando no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, na Praia Vermelha, pertencente da antiga Divisão de Saúde Mental.

O envolvimento de Nise com o marxismo valeu-lhe 15 meses de reclusão no presídio da Frei Caneca, no período de 1936-1934, local onde conheceu Graciliano Ramos, que a descreve no seu famoso livro "Memórias do Cárcere".

Livre da prisão vagou na semiclandestinidade ao lado do marido sanitarista Mario Magalhães devido ao risco de ser novamente presa. Em 17 de abril de 1944 foi reintegrada ao serviço público, sendo lotada no Hospital Pedro II, antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no subúrbio do Rio de Janeiro. Nise sentia-se inapta para exercer a tarefa de psiquiatra, pois, era ferozmente contra os choques elétrico, cardiazólico e insulínico, as camisas de força, o isolamento, a psicocirurgia, e outros métodos da época que considerava extremamente brutais e recordavam-lhe as torturas do Estado Novo aplicada aos dissidentes políticos. Sua postura humanista a faria ser uma pioneira das idéias de Laing e Cooper (antipsiquiatria), Basaglia (psiquiatria democrática) e Jones (comunidade terapêutica).

No mesmo ano que entrou no Hospital Pedro II. Nise colaborou com o psiquiatra Fábio Sodré na introdução da TO naquela instituição. Em 1946, sabendo que Nise havia colaborado na implantação da TO no HPII, o então do diretor deste hospital, Paulo Elejalle, entusiasta desta forma de reabilitação psiquiátrica, pediu a ela para criar a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR) do Centro Psiquiátrico Pedro II, neste mesmo ano. Em 1954 o STOR foi regulamentado pelo próprio Paulo Elejalle através de uma ordem de serviço, e oficializado em 9 de agosto de 1961 pelo decreto presidencial no 51.169.
O STOR tinha alguns setores especializados, mas foi a criação do atelier de pintura que o tornaria famoso. Em pouco tempo o atelier do STOR ganhou notoriedade e a produção dos pacientes tornou-se um material impressionante sobre as imagens da psicose. Para preservar e pesquisar o acervo artístico dos psicóticos (que reúne cerca de 350 mil obras), Nise criaria o internacionalmente famoso Museu de Imagens do Inconsciente em 1952, referência internacional e objeto de estudos e visitas.

Nise introduziu ainda animais (gatos e cães) em seu serviço como forma de atrair a afetividade dos psicóticos estabelecendo uma ponte com o mundo real. 

Nise estudou a TO sob todos os pontos de vista da época (Kraepelin, Bleuler, Schneider, Simon, Freud, Jung) justificando-a sob todos os ângulos, sem contudo subordinar-se intelectualmente a nenhuma destas escolas, apesar de ter encontrado na psicologia profunda de Jung a base para explicar a produção artística dos psicóticos no atelier de pintura do STOR, bem como a possível linguagem para entender o processo da psicose. Em 1956 ela criou a Casa das Palmeiras, uma instituição externa para atendimentos dos padecentes mentais sem internação ou restrição de liberdade. Aí se iniciou um projeto nos moldes em que Nise concebia a psiquiatria, e que foi precursor do atual hospital-dia, lares abrigados e centros de convivência. A Casa das Palmeiras foi reconhecida como de utilidade pública por decreto municipal em 1963.
O embasamento de sua experiência com a arte dos psicóticos, e a descoberta da Psicologia Junguiana como o suporte teórico que necessitava para compreender toda aquela a linguagem do inconsciente manifestada naquele acervo, fez Nise evoluir naturalmente da TO para a Psicologia Profunda e tornar-se a maior autoridade em Psicologia Junguiana no Brasil. 

O encontro de Nise com a psicologia Junguiana não foi obra do acaso. Ao iniciar a terapia ocupacional com psicóticos no CPPII, usando a pintura, o desenho e a modelagem, logo ela percebeu algo singular: uma profusão de figuras circulares ou "mandalas", e a recorrência de temas mitológicas e religiosas, e logo percebeu que estava lidando com uma produção viva do inconsciente daqueles pacientes. Foi em Jung que ela encontrou semelhante observações e um sistema teórico que procura interpretar estes achados.

Em 1954 travou contato com Jung através de cartas, onde discutia as mandalas de seus psicóticos. Desde então, Jung impressionou-se com o material do Museu de Imagens do Inconsciente e aconselhou Nise a estudar mitologia e religiões comparadas para encontrar a fonte ou arquétipos de tudo aquilo, que ele afirmava, como ela já percebera lendo suas obras, ser a manifestação do inconsciente coletivo.
O primeiro encontro entre Nise e Jung se deu em 1957, no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique. Jung inaugurou a exposição "Esquizofrenia em Imagens", do Museu de Imagens do Inconsciente, na presença da Nise que fora para a Suíça com bolsa do CNPq. Esta mostra causou uma enorme sensação e foi o reconhecimento mundial definitivo das idéias e do trabalho de Nise da Silveira. Nise completou sua supervisão em psicanálise Junguiana com Marie Louise von Franz, a assistente de Jung, viajando para Zurique algumas vezes e também mediante troca de cartas com Franz, resultando uma estreita e profícua amizade entre essas duas grandes mulheres.

Produção literária:

Detentora de numerosos títulos, comenda e medalhas de mérito, Nise teve amplo reconhecimento em vida de sua obra e contribuição para a psiquiatria. Publicou alguns artigos em jornais e revistas populares, e seus artigos acadêmicos são poucos, todos em língua portuguesa e em revistas nacionais.

Fonte: Museu de Psquiatria Brasileiro





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